terça-feira, 24 de abril de 2012

EU NÃO SEI QUEM TE PERDEU


Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

Pedro Abrunhosa
 
 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SILÊNCIO


“O silêncio é algo que não pode ser comprado.
Quantos de nós saberíamos defrontá-lo?
Os ricos compram o barulho.
No entanto, nosso espírito se realiza quando estamos mergulhados no silêncio natural.
Esse silêncio que jamais recusa aqueles que o procuram.
O som aniquila a grande beleza do silêncio”.
               Charles Chaplin

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O HOMEM LÚCIDO

     
      O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que nunca se entusiasma com ela, assim como não teme a morte. O homem lúcido sabe que viver e morrer são o mesmo em matéria de valor, posto que a Vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal.

      O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência. Sabe que, por opção ou acidente, é possível cair no abismo, a qualquer momento, interrompendo a sessão do circo.

      Pode também o homem lúcido optar pela Vida. Aí então, ele esgotará todas as suas possibilidades. Passeará por seu campo aberto e por suas vielas floridas. Saberá ver a beleza em tudo. Terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará. Resistirá aos infortúnios e até às doenças. E, se atingido por algum desses emissários, saberá suportá-los com coragem e mansidão.

      Morrerá o homem lúcido de causas naturais e em idade avançada, cercado por filhos e netos que seguirão sua magnífica aventura. Pairará então, sobre sua memória uma aura de bondade. Dir-se-á: aquele amou muito e fez bem às pessoas.

      A justa lei máxima da natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem iguale-se sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O homem lúcido que optou pela Vida, com o consentimento dos Deuses, tem o poder magno de alterar esta lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis estarão sempre em maioria.

      Esta é uma cortesia que a Natureza faz com os homens lúcidos.

  Livre tradução, (parte) de um Tratado sobre a Lucidez, escrito no século VI ac, na Caldéia, parte sul da Mesopotâmia, entre os rios Eufrates e Tigre.

sábado, 22 de outubro de 2011

ME LEVA A DUVIDAR


Esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer
esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir
esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir.
(Paulo Leminski)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

AMORA


O meu sonho era ter uma alma manchada de amora,
com sabor de amora, nada mais que amora...
E que sua nódoa só saísse se lavada com as
lágrimas de saudade da mulher amada.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

AMIGOS


“...Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta...”  (Graciliano Ramos)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

(in)FELICIDADE


A felicidade é uma possibilidade,
A infelicidade uma realidade.
A felicidade é abstrata,
A infelicidade é concreta.

Felicidade é uma busca constante,
Infelicidade é a constatação atuante.
Felicidade é a finalidade banal,
Infelicidade é a consequência real.

Felicidade é o apego aos hábitos maiores,
Infelicidade é a falta de dias melhores.
Felicidade é a ausência da dor,
Infelicidade é a ausência do amor.